Dois e-mails trocados, meia dúzia de palavras ao telefone e finalmente você consegue aquilo que tanto queria: o primeiro encontro. Desliga o telefone eufórica, grita “yes!” em alto e bom tom para os coleguinhas da baia ao lado ouvirem, e até arrisca uns passos de samba bem em frente à sala da chefe. Você conseguiu! E pronto, acabou o seu último minuto de paz. Você começa a pensar em tudo o que precisa fazer para ficar apresentável até lá. Lembra-se do seu guarda-roupa – aquele bando de trapo velho démodé – e a gastrite adormecida há vários meses volta a dar sinal de vida. Aquela menina “que sempre emplaca tu-do” não dispensa o terninho preto, básico. Mas nela sempre fica chique, por que ela é maaaaaagra – o que lhe faz lembrar o quanto você está gorda. Repassa mil vezes o guarda-roupa pela memória, mas só consegue pensar no jeans desbotado com a velha camisa social branca de gola alta.
Diante da irremediável constatação de que “não tem roupa”, desiste de almoçar e corre para o shopping mais próximo. “Preciso parecer mais velha, mais responsável, mais segura e bem-sucedida”. A vendedora sugere uma blusa florida, em tons pink, com uma saia justíssima, rosa mais claro. Ok, querida, não vou ser recepcionista de uma convenção da Pantera Cor-de-Rosa. Corre para uma loja mais sofisticada, e acaba pagando cinco vezes mais do que poderia pelo novo tailler, lindíssimo, em três tons de cinza. A velha bolsa da Victor Hugo vai sair do armário, mas ainda falta o sapato: e lá se vão mais R$ 200 por um bico fino que você jamais vai usar novamente. Traje decidido, faltam ainda 15 minutos do almoço, que você usa para uma manicura fazer de qualquer jeito a sua mão, te deixando mais pobre e com mais cutícula do que tinha antes de entrar lá.
Volta correndo para o escritório, repassa mil vezes o texto, caça erros de ortografia, organiza tudo na pastinha. Faltam ainda caneta e gravador. Olha sobre a mesa aquela coleção de Bics mordidas, derrotadas, e o velho gravador preto de fita grande do tempo da faculdade da sua mãe. A menina “que sempre emplaca tu-do” tem uma prateada de ponta fina, intacta, suíça, que repousa leve sobre o gravador digital japonês em sua mesa central, iluminadíssima. Consulta o extrato na Internet e o relógio e se dá conta de que não tem dinheiro nem tempo para comprar uma caneta suíça e muito menos para um gravador digital japonês. Joga a ética para debaixo da mesa e fica até depois da hora (digo, até muito depois da hora, por que a menina que sempre emplaca tu-do sempre sai tarde) para “pegar emprestado sem permissão” os valiosos instrumentos de trabalho da colega.
Já em casa, come uma folha de alface para enganar a fome (você tem certeza de que se comer duas o tailler não vai entrar), repassa dezenas de vezes a fala no espelho. O reflexo denuncia que falta ainda arrumar os cabelos – desbotados e seeeeeecos – e depilar as pernas. E lá se vão dois potes de creme anti-frizz, uma hora de escova caseira, duas de chapinha (e duas leves queimaduras no couro cabeludo). Você raspa o resto da cera do fundo da panela velha, cola na perna, e uiva de dor. “Mulher peluda não pode ser bem-sucedida”. Desmaia na cama, e cinco minutos depois o despertador anuncia que já é hora de levantar.
Toma um banho mais rápido do que gostaria, dá um último retoque na escova e na maquiagem, e quando pega o telefone para chamar o táxi, descobre que a carteira está vazia. Você é obrigada a enfrentar um ônibus lotado até a Central, metrô e dois quarteirões de caminhada (com o bico fino esmagando todos os seus dedos). Chega bem a tempo de ver o carro chegar com o repórter, aparentando 18 anos, de calça jeans desbotada, sandália de couro e camiseta branca. Um breve aperto de mãos e você tem certeza de que o moleque não leu a pauta. Começa a pensar nos gastos que acumulou no cartão de crédito, na alface solitária no estômago, na caneta suíça e no gravador digital furtados. Está quase indo embora, quando ele solta: “Mas que horas o seu cliente vai chegar?”. Ok, é só um detalhe, mas você esqueceu de avisá-lo da entrevista.